15 de maio de 2011

Agora


Ele abre uma caixa velha. O bolor nos cantos e o cheiro de mofo. Quadrada. Discreta. Silenciosa.

Dentro remexe lentamente os papéis, olha antigas fotos, encontra bilhetes preciosos. Não segura o suspiro, não contém o espanto. As sobrancelhas acusam o leve desespero de rever imagens tão antigas. Não acredita em reencarnação, mas ali diante dele toca uma ciranda de uma outra vida.

Um carrossel de emoções, no giro espetacular que só a vida dá. Numa volta tudo muda. Muda de lugar, de direção, o sentido da existência num outro caminho que percorria. As mesmas placas apontam os velhos lugares, mas o fôlego não deixa partilhar nem mais um curto passo.

Abre um sorriso, por um momento lembra que naquele dia o sol aquecia, bem diferente do que hoje, mas acalentava sua alma, fria e solitária.

O telefone toca, anunciando um novo contato. Ele aguarda. Um, dois, três, quatro toques e a secretária toma partido da situação. A voz dela ecoa e num choro miúdo declara. Se esvai em prantos. Denuncia, acusa, difama, na voz chorosa canta a canção dos perdedores. Perdeu o amor, a fé e a coragem. Não dá mais, não me procure. Eu vou embora. Pra sempre.

Ele encara as recordações. Elas devolvem num pacote escuro e pardo o silêncio. Ele sorri pelo que viveu e deixa as coisas num canto. Pra que não se percam, mas também não fiquem a vista.

Abre um novo álbum e encara o livro vazio.



Estou pronto pro novo. Estou pronto pro agora.

17 de fevereiro de 2011

Labirintos



O que me faz prender o ar, perder a respiração, ter arritmia e não conseguir controlar as mãos, é sempre esse seu jeito de sorrir meio de lado. Me olha de canto, mesmo me vendo por inteiro. E no embalo do abraço encontra o aconchego que eu nunca tiro do bolso.

Você passeia dentro de mim, aparece entre os arbustos me chamando, entre cavernas soterradas, por dentro das jaulas fechadas. Invade a sala, quarto e jardim. Às vezes leva minhas flores e em outras me rouba um beijo. Corre como menina levada se escondendo nos meus sonhos.

Mas quando acordo você não está mais ali.

Me sinto perdido. Me acho e me divido. Sou um que soma dois. Um antagonismo precioso, extremos opostos que se interligam num círculo vicioso sem fim. É riso e choro, drama e comédia, tudo assim.

E a mesma chave que abre é a que fecha. Somos dois labirintos que se encaixam como peças perfeitas de um relicário antigo.

26 de novembro de 2010

Bytes e Madrugadas


Me vejo parado perto da beira de um lago límpido. Seu azul é profundo, tão profundo quanto a cor dos seus olhos. O vento me traz a brisa de um sorriso e tudo que tenho são quilômetros de desvantagem.


Nos entendemos de uma forma tão sutil e eu não entendo como certas coisas acontecem. A ampulheta do tempo marcando um compasso sem ritmo e eu contando as horas pra saber de você. Frases tão simples explicam pro meu coração que nem tudo são decepções. Que por trás das novas descobertas estão novos mistérios, tão doces e delicados quanto a tua timidez.

Quero puxar a cortina da sala e deixar o sol entrar. Não quero respirar o ar infestado de ácaros de amores não correspondidos. Não quero mais tocar os LP´s antigos de recordações doloras. A vitrola é vela e meu computador está fervendo. Meu modem só disca para sua casa, é o único caminho que minhas coordenadas físicas ou virtuais procuram. Tudo porque você está do outro lado.

Conecto meus pensamentos em uma outra cena e mando um email com uma declaração gostosa. Bytes de informação repletas de sentimento. No assunto eu apenas dedico minhas verdades:

Quero você.

9 de novembro de 2010

Despertar


Acordei de um pesadelo. E não foi com despertador, não foi com gente gritando na porta e nem a roçadeira no vizinho gritando um mau educado bom dia. A chuva parou e eu abri os olhos.
Bocejei um alívio de dez anos perdidos, um alívio de dez anos vividos e dez dilúvios chorados por meus olhos. Me espreguicei pois a preguiça jazia morta e vazia nas entranhas da minha solidão, eu estava me movendo e vivo, levantando da cama e sorrindo.

O café estava pronto e me convidou a sair do meu quarto, enquanto eu andava pela casa reconhecia que não me conhecia mais tanto. Parecia que eu visitava um lugar desconhecido, mas eu era abraçado pelo meu conforto. Percebi que voltei a ter carinho pelo meu ninho e que eu estava feliz comigo mesmo por ser simplesmente eu. Não por arrogância ou egolatria, era eu mesmo pois estava vivendo para mim.

Olhei na agenda para ver quantas festas eu tinha perdido, quantas viagens desmarcadas e quantos amigos esquecidos. Jantares, almoços, cinemas, pedaços de mim frios pela sombra do cativeiro. Havia me sequestrado por um amor antigo e tentava conseguir meu pagamento pelo resgate. E a minha liberdade custava tão pouco. Um gesto singelo, um sorriso e uma conversa e eu estava livre.

Andei pela calçada me acostumando com o abraço do sol, o calor esquentando minha alma mas ainda escaldado pelo frio da solidão. Uma gota caiu de um ipê nas minhas costas por dentro da camisa. Eu ainda me lembraria das marcas, não conseguia correr pela cidade, minha euforia contida. Apesar de eu ver ao longe algo tão bonito, que me chamava e pedia um abraço, meus pés ainda estavam dormentes e o rosto inchado pelo veneno.

Que horas são? Não tinha mais noção do tempo, e só queria ficar mais um tempo contemplando aquela visão. Olhos tão claros em que eu podia me perder como num lago límpido, um sorriso tão arrebatador que sentia invadir minha alma e a distância no meio. Uma ponte, uma escada, um abismo que eu não podia pular. Não ainda.

Apenas a chance de poder sonhar me deixava feliz.

Eu estou vivo.

8 de novembro de 2010

Tão pouco

Estou cansado.

Eu lutei tanto, eu insisti tanto, até a saliva da minha boca secar, até os olhos cegarem e os joelhos dobrados quebrarem. Fui até os confins do inferno e entreguei meu ego ao diabo, negociei minha rendição e vendi meu orgulho, busquei a redenção e salvação, tudo por um motivo estúpido.

Fui um estúpido.

Nada que eu fizesse faria você voltar. Nada que eu fizesse faria eu esquecer. Nada que eu fizesse desataria o nó dessa encruzilhada. Naquele dia que eu te encontrei, no dia que nossos caminhos se cruzaram.

Você foi embora, não é a mesma nem por dentro e nem por fora.

Tudo que eu fui ao seu lado, todas as coisas boas que eu me tornei, tudo foi jogado fora. É como se eu tivesse perdido a pele em queimaduras de 3º grau quando você mostrou quem realmente era.
A decepção me tirou a roupa e me deixou nu, e eu me sinto agora envergonhado por você.

Vergonha de ter compartilhado segredos, de ter confidenciado desejos e unidos sonhos. Vergonha de ter deixado parte de quem eu era pra trás e agora não resgatar mais minha vida. Vergonha de ter andado ao lado de alguém que hoje só me traz essa mesma vergonha.

Tudo que eu queria era apagar tudo isso, não ter vivido nada do seu lado seria mais brando do que ter a liberdade vazia de uma decepção tão amarga. Eu não sinto mais amor por você, eu não sinto mais raiva de você. Nem nojo. Apenas pena.

Pena por ter perdido tanto tempo por tão pouco.

24 de outubro de 2010

21

Hoje dia 21.

Essa data representa tanta coisa, não é um dia como qualquer outro. Sempre me lembrando de um pacto que foi selado e já foi quebrado. Um ciclo que começou mas ficou aberto, com um desfecho triste, mesmo com as histórias boas na memória.

Mas não vim para contar as tristezas do meu peito, nem falar sobre as tempestades que atormentam minha alma. Vim para falar de novos amanheceres e reger as sinfonias de novas canções nos cantos dos pássaros.

O dia se descortina e o sol me dá bom dia, eu lembro do momento na beira da praia ouvindo o som do mar rolar. Lembro do teu toque e do teu cheiro, mas o que não sai da minha cabeça é o som da tua voz e o eco da tua risada nas minhas cócegas.

Eu ainda sei e acredito que o nosso amor é novo, é o velho amor ainda e sempre. E fico com medo da noite, quando não sei onde você está. E não posso descarregar as conquistas do meu dia, cada uma como uma bala numa metralhadora, acertando em cheio o alvo dos meus objetivos. Não posso marcar a lista das coisas que vamos fazer do nosso futuro. Não posso te ligar porque você perdeu o celular. Mas o que dá mais medo é não saber se você volta. Não diga que você não volta, eu não vou conseguir dormir.

Eu sempre exagero, na minha alegria, na minha tristeza e até no meu desespero. Mas eu sempre fui assim, exagerado, jogado aos seus pés, eu sou sempre exagerado. Participo da vida como um ator iniciante, e as vezes como um ator veterano, ensaiando meus passos, sejam eles de dança, de pressa ou pra sair de fininho. Porque tudo faz parte do meu show.

Minha garganta estranha, quando não te vejo. Me vem um desejo doido de gritar, de te chamar, de brigar pra estar com você aqui pertinho de mim. Como um cão sem dono me ponho a ladrar. Eu aprendi a me virar sozinho, mas se eu estou te dando linha é pra poder te aproximar.

O teu amor é uma mentira que a minha vaidade quer, e eu bebo poesias de cego, você não pode ver, não pode sentir o cheiro nem tocar a superfície de cada verso.

Não assumimos quem somos, mas nesta data ninguém nos acusa.Ninguém vai nos perdoar, nosso crime não compensa.

23 de setembro de 2010

Volúpia


Eu te tomo em meus braços, seu corpo quente e ardente. Antes mesmo do toque eu via por debaixo da sua pele, eu corria nas suas veias e pulsava dentro do teu coração.
Eu me visto com tua carne, eu me encerro dentro de ti. Tão junto quanto tuas coxas coladas, fingindo não querer que eu chegasse mais fundo. Não abrindo o caminho pro meu corpo, mas me arranhando as costas mais fundo que a sua consciência.

Nossa respiração está sincronizada, o seu hálito atravessando meus pulmões. Os olhos semi-cerrados, a boca entreaberta. Um toque nos dedos. Um abraço. E os gemidos das nossas confissões.

A distância do tempo. A distância dos dias. Casas, prédios, carros e pessoas. Tantas coisas entre a gente. Tantas coisas bagunçadas no quarto. Mas o caminho pro teu corpo eu sempre encontro. Eu me guio pelo teu cheiro. O cheiro de sexo que me atiça no cio da nossa paixão mais pervertida.

As máscaras caem, eu enxergo o teu âmago, pedindo mais de mim, pedindo meu gozo. Eu atravesso a noite mais íntima chafurdando na lama da nossa lascívia, me envolvendo eu teu lençol mais obsceno. Eu fecho as cortinas e abro suas pernas.

Eu fecho os olhos e abro tua boca. Eu não falo mais nada e só escuto o seu grito. De prazer. De loucura. De ambição. Você quer mais. Sempre mais de mim. Não inteiro, mas em fatias fantasiadas pedaço por pedaço num caleidoscópio erótico.

Eu bebo sua saliva, eu me lambuzo com teu suor. Me penduro em seu cabelo e me aventuro na escuridão. Eu me descubro à luz clara, acessa enquanto nos olhamos no espelho. Encaixados e em movimento. No banho que tira nossa libertinagem. A água molhando nosso desespero de nosso último momento.

Tudo começa rápido, tudo é instantâneo. Explosivo. Rápido. Um rompante e o desejo corroendo como ácido nossa carne.

É sempre o último instante. O último encontro. A última noite.
Tudo tão intenso, selvagem e chocante. Aguardando uma próxima vez.

14 de setembro de 2010

Sorriso roubado



Sabe quando você está andando por aí, meio à toa, num ritmo lento e olhando para os lados? Assoviando um canção boba, daquelas que grudam no compasso do pensamento. Batucando o ritmo nas coxas enquanto olha o movimento e imaginando que o mundo as vezes podia passar em slow-motion. Bem devagar.

Aí então, eis que aparece, feito um reflexo no pára-brisa de um carro. Me ferindo os olhos e chamando minha atenção. É o seu corpo, o seu jeito e o seu cheiro. Invadindo o tráfego na contra-mão e batendo no meu corpo inerte. Lançando minha alma a mais de 20 metros do lugar, pra me estatelar numa parede chapiscada e pixada com um eu te amo velho e desbotado.

Eu resolvi ficar na cidade, me adaptar ao meu cotidiano já rotineiro. mas que agora me estranhava mais que uma farpa por baixo da unha. Você não estava mais nele. Era tudo igual, mas era tudo diferente.

Mesmo assim sua viagem já apontava no meu GPS quilômetros de distância, de saudades, de desencontros. Do velho "eu não quero mais saber".

Bastou um "oi", um abraço, um toque. E você voltou como um míssil atingindo o vilarejo chamado meu cotidiano. Explodindo meus amigos, meus sonhos e pensamentos.

O sentimento que uma vez senti era de ter perdido algo, por distração minha. Mas o que me invade agora é a sensação de que fui assaltado. E a marginal dessa vez era um rosto muito conhecido, com um sorriso bobo que eu conheço bem. Você.

7 de setembro de 2010

Seu toque

Estou com pressa, muita pressa. Andando atropelado, deslocado, meio torto, feito menino bobo. Meio de lado, com o boné virado. Percebo o meu atropelo. Coloco as mãos no bolso, jogo o boné fora. Consulto a hora, coloco meu melhor casaco. Pra me proteger do frio, pra me proteger do teu calor, pra ficar mais bonito e causar o teu rubor.

Olho pros lados enquanto ando pela calçada. Olho as vitrines mas não me interessa os preços. O valor está no reflexo do vidro. No instante que vejo meu olhar refletir sozinho, dentro de um tempo que envelhece feito vinho. Cada minuto que passa aproximando a hora de te ver, melhorando o meu astral, bem mais do que o guia da TV.

Jogo a moeda pra cima, duas caras, duas coroas, tanto faz. Tanto fez. O valor disso está no momento, e no final das contas, no que a gente faz. Um encontro, uma música. Tanta coisa pode acontecer dentro da melodia. É na música que eu consigo lembrar do teu toque.

Brincando com o gelo da bebida, escrevendo na minha pele o teu nome. Arrepiando o meu corpo com um gesto simples, mexendo com os sentimentos do que me faz homem. Tocando, sentindo, mexendo comigo. Chega na minha sala, senta na poltrona e se espalha tomando conta do meu ninho.

Não me toquei que o teu toque pudesse me tocar tanto. E a canção toca enquanto escrevo, no meu canto...




30 de agosto de 2010

Lascívia


De toda a tristeza que um dia rondou em meu peito, como um som abafado de uma bronquite, hoje percebo mais leve e são do que nunca, que eu não tive culpa.

A culpa é um fardo muito pesado, que só carrega aquele que antes andava de mãos vazias. Ou de mãos atadas, ou com as mãos feridas. Com as mãos longe do jardim, sem cuidar das flores, com a cabeça cheia de minhocas e o adubo do chão pedindo atenção. O chão seco e árido, onde as flores não cresciam mais, onde não brotavam mais sonhos nem trilhava caminho algum em direção a nada.

Hoje as flores que um dia te dei estão mortas na sala. As pétalas caídas por cima das cartas, o amarelo do papel manchado com a tua lágrima e o borrão da escrita mostrando que tudo agora são vultos. Sombras. Apenas contornos do que um dia fomos nós. Juntos e inseparáveis, num dia que até o destino hesitou em nos separar.

Só me resta o vazio do teu corpo, teu corpo que visto e visito a luxúria. Uma capa, uma casca, um disfarce para as lembranças que retornam quando te vejo. O teu sorriso é oco, a tua fala é rouca, e o teu gênio ruim já não é mais tão malandro. É um teatro e o fantoche deixou os dedos amostra, eu prevejo os movimentos e vejo seus traquejos.

Você conseguiu provar o seu próprio valor em se desvalorizar. E eu não acho ruim, só acho diferente. Apenas diferente eu me sinto também em sentir a diferença.