10 de novembro de 2011

Cúmplices



As vezes, quando a gente anda muito tempo sozinho, pensamos que nada vai ser como antes. Não importa que você tente colar os pedaços quebrados do porta-retrato, ele sempre vai estar meio de lado em cima da mesa.

A gente passa a vida tentando se convencer de que não precisa mais daquilo que um dia viveu. Que um dia serviu de alimento. Quem um dia vestiu pra se aquecer num dia úmido e frio. Que já serviu até pra dar mais gosto no café.

Mas a vida é mais que uma cilada armada. Bem mais do que uma armadilha marota na encruzilhada. E nos mostra um sorriso onde antes só havia calafrio. Daí então as cartas deixam de cantar velhas saudades e passam a ser testemunhas de uma nova cena de amor febril.

Todo lugar vira confessionário. Na esquina, na calçada, nas escadas no caminho do seu apartamento, até debaixo do cobertor é momento pra se contar mais uma poesia.

Você descobre que o relógio acelera tanto quanto o seu coração quando se encontram e que um abraço passa a fazer muito mais sentido. Unindo os braços, o coração no compasso do passo, de dois amigos cúmplices lado a lado.

Quando vi que queria você já era tarde, era mais que paixão. Era amizade, era amor, era nós dois conversando sobre a nossa felicidade.

18 de setembro de 2011

As razões do meu amor



Eu descobri que te amo quando percebi que o tempo passa muito mais rápido quando estou do teu lado.

E descobri que meu sorriso se mostra mais verdadeiro quando estou contigo. Que a gente ri um do outro sem ironia. E a gente sabe o que o outro pensa, porque pensa parecido.

Descobri que o teu abraço é o lugar mais quentinho e confortável do mundo. E que as músicas de amor fazem muito mais sentido quando eu estou contigo.

Descobri que faltava uma parte em mim, porque depois que você chegou eu me sinto muito mais completo. E descobri que eu posso viver sem você, mas que contigo o mundo é muito melhor. E o bom é que você não quer ir embora de mim, nem eu de você.

E descobri que o amor chegou e eu nem senti, porque eu estava muito distraído prestando atenção em nós dois.

8 de agosto de 2011

Eterna viagem

Nossa vida é uma eterna viagem, sempre em frente, numa estrada sem fim. Sem começo e sem meio.



Eu não carrego o que não me convém. As tristezas eu deixo de lado, os fracassos deixo pra trás. Minha bagagem não tem espaço pro medo, eu só carrego o que me deixa contente.
Me contento e não me contenho. Só carrego o amor e um pedaço de papel.

Nele tem o endereço daquela moça, com seu singelo sorriso a me receber na porta de casa. Com cheiro de bolo na cozinha e um abraço tão quente quanto o coração que me tira do inverno.

Nada mais me contenta do que aquele abraço. E eu carrego sempre na memória a recordação dela deitada em meu colo, enquanto embalo seus sonhos numa noite de domingo.

O amor me acompanha nessa estrada, nessa eterna viagem. E não temos pressa, porque o verdadeiro amor não corre, ele se constrói aos poucos, dentro do nosso dia a dia.

Estou andando. Sempre em frente. Com o endereço do amor no meu bolso e um sorriso no coração.

19 de junho de 2011

Coração confesso

Ei, coração, onde está você?

Debaixo da cama, escondido com medo da luz? Me conte o que há de errado e eu vou te entender.

Ei, coração, que bate em meu peito num ritmo lento. Me diga, o que há de errado? A porta emperrou ou foi você que trancou? Parece um menino acuado, com medo da bronca, fazendo hora na rua pra não chegar em casa e encarar os olhos dos pais.

Eu vou te limpar, eu vou lavar o seu rosto e enxugar as lágrimas. Nós que sempre fomos um. Nós que sempre aguentamos a verdade. Toda a sinceridade absurda dos dias mais cínicos. Toda a ferocidade da capa do jornal de domingo, dizendo que o amor morreu.

Hoje é domingo e de amanhã já não sei.

15 de maio de 2011

Agora


Ele abre uma caixa velha. O bolor nos cantos e o cheiro de mofo. Quadrada. Discreta. Silenciosa.

Dentro remexe lentamente os papéis, olha antigas fotos, encontra bilhetes preciosos. Não segura o suspiro, não contém o espanto. As sobrancelhas acusam o leve desespero de rever imagens tão antigas. Não acredita em reencarnação, mas ali diante dele toca uma ciranda de uma outra vida.

Um carrossel de emoções, no giro espetacular que só a vida dá. Numa volta tudo muda. Muda de lugar, de direção, o sentido da existência num outro caminho que percorria. As mesmas placas apontam os velhos lugares, mas o fôlego não deixa partilhar nem mais um curto passo.

Abre um sorriso, por um momento lembra que naquele dia o sol aquecia, bem diferente do que hoje, mas acalentava sua alma, fria e solitária.

O telefone toca, anunciando um novo contato. Ele aguarda. Um, dois, três, quatro toques e a secretária toma partido da situação. A voz dela ecoa e num choro miúdo declara. Se esvai em prantos. Denuncia, acusa, difama, na voz chorosa canta a canção dos perdedores. Perdeu o amor, a fé e a coragem. Não dá mais, não me procure. Eu vou embora. Pra sempre.

Ele encara as recordações. Elas devolvem num pacote escuro e pardo o silêncio. Ele sorri pelo que viveu e deixa as coisas num canto. Pra que não se percam, mas também não fiquem a vista.

Abre um novo álbum e encara o livro vazio.



Estou pronto pro novo. Estou pronto pro agora.

17 de fevereiro de 2011

Labirintos



O que me faz prender o ar, perder a respiração, ter arritmia e não conseguir controlar as mãos, é sempre esse seu jeito de sorrir meio de lado. Me olha de canto, mesmo me vendo por inteiro. E no embalo do abraço encontra o aconchego que eu nunca tiro do bolso.

Você passeia dentro de mim, aparece entre os arbustos me chamando, entre cavernas soterradas, por dentro das jaulas fechadas. Invade a sala, quarto e jardim. Às vezes leva minhas flores e em outras me rouba um beijo. Corre como menina levada se escondendo nos meus sonhos.

Mas quando acordo você não está mais ali.

Me sinto perdido. Me acho e me divido. Sou um que soma dois. Um antagonismo precioso, extremos opostos que se interligam num círculo vicioso sem fim. É riso e choro, drama e comédia, tudo assim.

E a mesma chave que abre é a que fecha. Somos dois labirintos que se encaixam como peças perfeitas de um relicário antigo.

26 de novembro de 2010

Bytes e Madrugadas


Me vejo parado perto da beira de um lago límpido. Seu azul é profundo, tão profundo quanto a cor dos seus olhos. O vento me traz a brisa de um sorriso e tudo que tenho são quilômetros de desvantagem.


Nos entendemos de uma forma tão sutil e eu não entendo como certas coisas acontecem. A ampulheta do tempo marcando um compasso sem ritmo e eu contando as horas pra saber de você. Frases tão simples explicam pro meu coração que nem tudo são decepções. Que por trás das novas descobertas estão novos mistérios, tão doces e delicados quanto a tua timidez.

Quero puxar a cortina da sala e deixar o sol entrar. Não quero respirar o ar infestado de ácaros de amores não correspondidos. Não quero mais tocar os LP´s antigos de recordações doloras. A vitrola é vela e meu computador está fervendo. Meu modem só disca para sua casa, é o único caminho que minhas coordenadas físicas ou virtuais procuram. Tudo porque você está do outro lado.

Conecto meus pensamentos em uma outra cena e mando um email com uma declaração gostosa. Bytes de informação repletas de sentimento. No assunto eu apenas dedico minhas verdades:

Quero você.

9 de novembro de 2010

Despertar


Acordei de um pesadelo. E não foi com despertador, não foi com gente gritando na porta e nem a roçadeira no vizinho gritando um mau educado bom dia. A chuva parou e eu abri os olhos.
Bocejei um alívio de dez anos perdidos, um alívio de dez anos vividos e dez dilúvios chorados por meus olhos. Me espreguicei pois a preguiça jazia morta e vazia nas entranhas da minha solidão, eu estava me movendo e vivo, levantando da cama e sorrindo.

O café estava pronto e me convidou a sair do meu quarto, enquanto eu andava pela casa reconhecia que não me conhecia mais tanto. Parecia que eu visitava um lugar desconhecido, mas eu era abraçado pelo meu conforto. Percebi que voltei a ter carinho pelo meu ninho e que eu estava feliz comigo mesmo por ser simplesmente eu. Não por arrogância ou egolatria, era eu mesmo pois estava vivendo para mim.

Olhei na agenda para ver quantas festas eu tinha perdido, quantas viagens desmarcadas e quantos amigos esquecidos. Jantares, almoços, cinemas, pedaços de mim frios pela sombra do cativeiro. Havia me sequestrado por um amor antigo e tentava conseguir meu pagamento pelo resgate. E a minha liberdade custava tão pouco. Um gesto singelo, um sorriso e uma conversa e eu estava livre.

Andei pela calçada me acostumando com o abraço do sol, o calor esquentando minha alma mas ainda escaldado pelo frio da solidão. Uma gota caiu de um ipê nas minhas costas por dentro da camisa. Eu ainda me lembraria das marcas, não conseguia correr pela cidade, minha euforia contida. Apesar de eu ver ao longe algo tão bonito, que me chamava e pedia um abraço, meus pés ainda estavam dormentes e o rosto inchado pelo veneno.

Que horas são? Não tinha mais noção do tempo, e só queria ficar mais um tempo contemplando aquela visão. Olhos tão claros em que eu podia me perder como num lago límpido, um sorriso tão arrebatador que sentia invadir minha alma e a distância no meio. Uma ponte, uma escada, um abismo que eu não podia pular. Não ainda.

Apenas a chance de poder sonhar me deixava feliz.

Eu estou vivo.

8 de novembro de 2010

Tão pouco

Estou cansado.

Eu lutei tanto, eu insisti tanto, até a saliva da minha boca secar, até os olhos cegarem e os joelhos dobrados quebrarem. Fui até os confins do inferno e entreguei meu ego ao diabo, negociei minha rendição e vendi meu orgulho, busquei a redenção e salvação, tudo por um motivo estúpido.

Fui um estúpido.

Nada que eu fizesse faria você voltar. Nada que eu fizesse faria eu esquecer. Nada que eu fizesse desataria o nó dessa encruzilhada. Naquele dia que eu te encontrei, no dia que nossos caminhos se cruzaram.

Você foi embora, não é a mesma nem por dentro e nem por fora.

Tudo que eu fui ao seu lado, todas as coisas boas que eu me tornei, tudo foi jogado fora. É como se eu tivesse perdido a pele em queimaduras de 3º grau quando você mostrou quem realmente era.
A decepção me tirou a roupa e me deixou nu, e eu me sinto agora envergonhado por você.

Vergonha de ter compartilhado segredos, de ter confidenciado desejos e unidos sonhos. Vergonha de ter deixado parte de quem eu era pra trás e agora não resgatar mais minha vida. Vergonha de ter andado ao lado de alguém que hoje só me traz essa mesma vergonha.

Tudo que eu queria era apagar tudo isso, não ter vivido nada do seu lado seria mais brando do que ter a liberdade vazia de uma decepção tão amarga. Eu não sinto mais amor por você, eu não sinto mais raiva de você. Nem nojo. Apenas pena.

Pena por ter perdido tanto tempo por tão pouco.

24 de outubro de 2010

21

Hoje dia 21.

Essa data representa tanta coisa, não é um dia como qualquer outro. Sempre me lembrando de um pacto que foi selado e já foi quebrado. Um ciclo que começou mas ficou aberto, com um desfecho triste, mesmo com as histórias boas na memória.

Mas não vim para contar as tristezas do meu peito, nem falar sobre as tempestades que atormentam minha alma. Vim para falar de novos amanheceres e reger as sinfonias de novas canções nos cantos dos pássaros.

O dia se descortina e o sol me dá bom dia, eu lembro do momento na beira da praia ouvindo o som do mar rolar. Lembro do teu toque e do teu cheiro, mas o que não sai da minha cabeça é o som da tua voz e o eco da tua risada nas minhas cócegas.

Eu ainda sei e acredito que o nosso amor é novo, é o velho amor ainda e sempre. E fico com medo da noite, quando não sei onde você está. E não posso descarregar as conquistas do meu dia, cada uma como uma bala numa metralhadora, acertando em cheio o alvo dos meus objetivos. Não posso marcar a lista das coisas que vamos fazer do nosso futuro. Não posso te ligar porque você perdeu o celular. Mas o que dá mais medo é não saber se você volta. Não diga que você não volta, eu não vou conseguir dormir.

Eu sempre exagero, na minha alegria, na minha tristeza e até no meu desespero. Mas eu sempre fui assim, exagerado, jogado aos seus pés, eu sou sempre exagerado. Participo da vida como um ator iniciante, e as vezes como um ator veterano, ensaiando meus passos, sejam eles de dança, de pressa ou pra sair de fininho. Porque tudo faz parte do meu show.

Minha garganta estranha, quando não te vejo. Me vem um desejo doido de gritar, de te chamar, de brigar pra estar com você aqui pertinho de mim. Como um cão sem dono me ponho a ladrar. Eu aprendi a me virar sozinho, mas se eu estou te dando linha é pra poder te aproximar.

O teu amor é uma mentira que a minha vaidade quer, e eu bebo poesias de cego, você não pode ver, não pode sentir o cheiro nem tocar a superfície de cada verso.

Não assumimos quem somos, mas nesta data ninguém nos acusa.Ninguém vai nos perdoar, nosso crime não compensa.

23 de setembro de 2010

Volúpia


Eu te tomo em meus braços, seu corpo quente e ardente. Antes mesmo do toque eu via por debaixo da sua pele, eu corria nas suas veias e pulsava dentro do teu coração.
Eu me visto com tua carne, eu me encerro dentro de ti. Tão junto quanto tuas coxas coladas, fingindo não querer que eu chegasse mais fundo. Não abrindo o caminho pro meu corpo, mas me arranhando as costas mais fundo que a sua consciência.

Nossa respiração está sincronizada, o seu hálito atravessando meus pulmões. Os olhos semi-cerrados, a boca entreaberta. Um toque nos dedos. Um abraço. E os gemidos das nossas confissões.

A distância do tempo. A distância dos dias. Casas, prédios, carros e pessoas. Tantas coisas entre a gente. Tantas coisas bagunçadas no quarto. Mas o caminho pro teu corpo eu sempre encontro. Eu me guio pelo teu cheiro. O cheiro de sexo que me atiça no cio da nossa paixão mais pervertida.

As máscaras caem, eu enxergo o teu âmago, pedindo mais de mim, pedindo meu gozo. Eu atravesso a noite mais íntima chafurdando na lama da nossa lascívia, me envolvendo eu teu lençol mais obsceno. Eu fecho as cortinas e abro suas pernas.

Eu fecho os olhos e abro tua boca. Eu não falo mais nada e só escuto o seu grito. De prazer. De loucura. De ambição. Você quer mais. Sempre mais de mim. Não inteiro, mas em fatias fantasiadas pedaço por pedaço num caleidoscópio erótico.

Eu bebo sua saliva, eu me lambuzo com teu suor. Me penduro em seu cabelo e me aventuro na escuridão. Eu me descubro à luz clara, acessa enquanto nos olhamos no espelho. Encaixados e em movimento. No banho que tira nossa libertinagem. A água molhando nosso desespero de nosso último momento.

Tudo começa rápido, tudo é instantâneo. Explosivo. Rápido. Um rompante e o desejo corroendo como ácido nossa carne.

É sempre o último instante. O último encontro. A última noite.
Tudo tão intenso, selvagem e chocante. Aguardando uma próxima vez.

14 de setembro de 2010

Sorriso roubado



Sabe quando você está andando por aí, meio à toa, num ritmo lento e olhando para os lados? Assoviando um canção boba, daquelas que grudam no compasso do pensamento. Batucando o ritmo nas coxas enquanto olha o movimento e imaginando que o mundo as vezes podia passar em slow-motion. Bem devagar.

Aí então, eis que aparece, feito um reflexo no pára-brisa de um carro. Me ferindo os olhos e chamando minha atenção. É o seu corpo, o seu jeito e o seu cheiro. Invadindo o tráfego na contra-mão e batendo no meu corpo inerte. Lançando minha alma a mais de 20 metros do lugar, pra me estatelar numa parede chapiscada e pixada com um eu te amo velho e desbotado.

Eu resolvi ficar na cidade, me adaptar ao meu cotidiano já rotineiro. mas que agora me estranhava mais que uma farpa por baixo da unha. Você não estava mais nele. Era tudo igual, mas era tudo diferente.

Mesmo assim sua viagem já apontava no meu GPS quilômetros de distância, de saudades, de desencontros. Do velho "eu não quero mais saber".

Bastou um "oi", um abraço, um toque. E você voltou como um míssil atingindo o vilarejo chamado meu cotidiano. Explodindo meus amigos, meus sonhos e pensamentos.

O sentimento que uma vez senti era de ter perdido algo, por distração minha. Mas o que me invade agora é a sensação de que fui assaltado. E a marginal dessa vez era um rosto muito conhecido, com um sorriso bobo que eu conheço bem. Você.

7 de setembro de 2010

Seu toque

Estou com pressa, muita pressa. Andando atropelado, deslocado, meio torto, feito menino bobo. Meio de lado, com o boné virado. Percebo o meu atropelo. Coloco as mãos no bolso, jogo o boné fora. Consulto a hora, coloco meu melhor casaco. Pra me proteger do frio, pra me proteger do teu calor, pra ficar mais bonito e causar o teu rubor.

Olho pros lados enquanto ando pela calçada. Olho as vitrines mas não me interessa os preços. O valor está no reflexo do vidro. No instante que vejo meu olhar refletir sozinho, dentro de um tempo que envelhece feito vinho. Cada minuto que passa aproximando a hora de te ver, melhorando o meu astral, bem mais do que o guia da TV.

Jogo a moeda pra cima, duas caras, duas coroas, tanto faz. Tanto fez. O valor disso está no momento, e no final das contas, no que a gente faz. Um encontro, uma música. Tanta coisa pode acontecer dentro da melodia. É na música que eu consigo lembrar do teu toque.

Brincando com o gelo da bebida, escrevendo na minha pele o teu nome. Arrepiando o meu corpo com um gesto simples, mexendo com os sentimentos do que me faz homem. Tocando, sentindo, mexendo comigo. Chega na minha sala, senta na poltrona e se espalha tomando conta do meu ninho.

Não me toquei que o teu toque pudesse me tocar tanto. E a canção toca enquanto escrevo, no meu canto...




30 de agosto de 2010

Lascívia


De toda a tristeza que um dia rondou em meu peito, como um som abafado de uma bronquite, hoje percebo mais leve e são do que nunca, que eu não tive culpa.

A culpa é um fardo muito pesado, que só carrega aquele que antes andava de mãos vazias. Ou de mãos atadas, ou com as mãos feridas. Com as mãos longe do jardim, sem cuidar das flores, com a cabeça cheia de minhocas e o adubo do chão pedindo atenção. O chão seco e árido, onde as flores não cresciam mais, onde não brotavam mais sonhos nem trilhava caminho algum em direção a nada.

Hoje as flores que um dia te dei estão mortas na sala. As pétalas caídas por cima das cartas, o amarelo do papel manchado com a tua lágrima e o borrão da escrita mostrando que tudo agora são vultos. Sombras. Apenas contornos do que um dia fomos nós. Juntos e inseparáveis, num dia que até o destino hesitou em nos separar.

Só me resta o vazio do teu corpo, teu corpo que visto e visito a luxúria. Uma capa, uma casca, um disfarce para as lembranças que retornam quando te vejo. O teu sorriso é oco, a tua fala é rouca, e o teu gênio ruim já não é mais tão malandro. É um teatro e o fantoche deixou os dedos amostra, eu prevejo os movimentos e vejo seus traquejos.

Você conseguiu provar o seu próprio valor em se desvalorizar. E eu não acho ruim, só acho diferente. Apenas diferente eu me sinto também em sentir a diferença.


23 de agosto de 2010


Maldições Abandonadas

O homem forte com sua fraqueza humana clara
A chama explosiva na cor da rosa cálida
Uma volúpia que não estanca a tua voz e cala
Tua fúria insana no teu peito estala

A revolta instantânea no momento de prazer
Cego pelas palavras que fizestes tu dizer
Pronúncias repletas de promessas a fazer
Um coração entregue no final do entardecer

Um vicio brota do teu sorriso tão inocente que surgiu
A magia da princesa que te buscou daquele mundo frio
O rubor na face do amor que tu sentiu
Tomou teu peito e na tua voz explodiu

Lança-te ao vento, entrega teu coração
Pra quem fizeste essa nobre e bela canção
Alcança de novo tua força, tua emoção
E desfaça da tua vida o desespero e a traição

Mergulha no raso lago dessa melodia suave
Respira o límpido ar que tão bem te fazes
Agarra aquela mulher que tu sabes
Reata contigo mesmo e faz as pazes

Tua força não é só assassina das tuas emoções
Antigas, frias, o passado das tuas recordações
Não há mais sentido nessas decepções
Apenas viva a beleza das tuas paixões

Por Leonardo
11/10/05

16 de agosto de 2010

Um brinde aos amigos






Estou satisfeito!

Sim, a satisfação se faz presente. Na orgia de dias gastos, de dias arrastados e infelizes, me acordaram com a cantoria de uma procissão notável. Olhei pela janela e vi um batalhão de pessoas. Mesmo que fossem poucos, a cantoria invadia a cidade e despertava o meu viver. Os hinos cantados aos ventos, de peito aberto e com o sorriso no rosto. Era o exército da liberdade, meus queridos amigos me visitavam.

A multidão se espremia entre poucas pessoas. Os abraços se multiplicavam, as gargalhadas disparavam notas cortantes, notas que rompiam meu desespero e afastavam a monotonia do compasso da minha depressão. Era a figura daquele amigo traquinas que despenteava meu cabelo enquanto zoava com a minha cara, desmerecendo meu sofrimento pois conhecia-me tão bem e fazia questão de mostrar como eu era grande, e aquelas coisas malditas, tão pequenas.

Um amigo que acabava com a rotina dos dias tristes me trazendo a lupa e fritando as formigas com os raios do sol, me divertindo com coisas tão pequenas e mostrando como era fácil passar por cima disso tudo. São apenas formigas, não são os monstros com que andei sonhando.

Os amigos que num abraço conseguem aplacar o mundo, que conseguem de forma implacável me tirar da solidão e em alguns minutos ao telefone buscar no fundo do íntimo a minha sincera explosão de risos. Amigos que já estão há muito tempo longe,mas que basta um aperto de mão pra me estender a mão de novo.

Meus amigos e amigas, dos quais conto nos dedos,talvez em apenas uma mão,mas que são tão preciosos que eu os carrego com as duas, e segurando firme, para não perdê-los.
Amigas que me escutam na solidão de um carro, na frente de casa, enquanto eu quero partir mas que me seguram apenas com a conversa, esvaziando os pneus e me mantendo distraído dos problemas lá fora.

Amigos e amigas que um dia tive, que ainda tenho e os muitos ou poucos que ainda virão. No final não importa a quantidade, mas a verdade de quem sem eles a vida não teria graça. Como disse o poeta "os amigos são a família que a vida nos permitiu escolher".

Eles estão lá, não tem o seu sangue, não são sua família, mas você não os abandona. Pois a amizade é um amor que nunca morre.

Um brinde aos amigos! Obrigado por aceitarem meus defeitos e verem neles alguma qualidade.



Ps: minha singela homenagem a Ligia (@licabilica,) Aninha (@aninhakita) André (@andre_neppel) Joo (@JoseanaBorri) Ahlan, Aline, Leonel e a Débora.

12 de agosto de 2010

Lágrimas do Escorpião


Ouvindo:


Lágrimas do Escorpião

O gelo conforta a minha carne amortecida
reveste com sua brutalidade absoluta os meus longos dias
Os ventos sussurrantes que cantam a minha dor retorcida
revelada se contamina, nas minhas expressões tão vazias

A liberdade está presa há muito tempo em meu coração
cordas tão serenas agarram minha alma inflamada
Do amor tão bonito só me restou a recordação
e a visão do instante que se foi minha amada

Sou eu mesmo apenas uma escultura no escuro
um objeto abstrato no caminho,na estrada
Sou o garoto perdido do outro lado do muro
ou mesmo sozinho aqui, sentado na sua escada

Eu me armo com espadas tão infantis
coisas que me fazem sentir mais seguro
Pois eu reconheço que são as emoções mais sutis
aquelas que me machucam e quebram o meu escudo

Ergo o meu ferrão e armo um ataque mortal
tento segurar o seu corpo, injetar meu veneno
Desfiro o golpe tão perigoso e fatal
mas percebo tarde que não é o momento

Por isso estou onde estou, só não sei como sair
sempre volto a este lugar no tempo do passado
Queria que você pudesse me fazer sorrir
e me lembrar que por você fui amado

Por Leonardo
13/12/2004

9 de agosto de 2010

Meu amor é uma vingança


Eu não sei o que fazer. Faço o que não sei explicar. Estou preso em um lugar do qual não consigo sair. E é por baixo da minha pele.

Você não gostaria de estar aqui. Não gostaria de sentir o sabor desse licor que corre em meu sangue. Um coquetel de dúvida e certeza, de medo e coragem, de queda e ascensão, um redemoinho cardíaco no meu sistema nervoso. Na verdade, há muito tempo já enfurecido.

Eu não quero cantar somente as dores, eu quero lembrar das vitórias. Mas o peso de cada medalha me traz ao meu corpo o peso do teu. Eu carrego os triunfos dentro da minha retina e nela você está marcada. No canto do meu olho, onde eu não te perco te vista. Mesmo que queira olhar pro lado, lá está você.



Você é a coçeira dentro do ouvido, lá onde eu não posso alcançar. Sussurando arrepios de saudade, marcas de batom que mancharam minha pele como uma tatuagem e o cheiro mais insuportável do teu perfume no meu casaco.

Eu como o seu corpo, eu bebo o seu desprezo, eu lavo a roupa manchada de sangue de mais um encontro traiçoeiro. Meu ralo só bebe os vestígios de nossa liberdade mais imunda.

Pois o meu amor é uma vingança que promete matar a solidão. É uma vingança aos dias vazios. Uma vingança as lágrimas de desespero, uma vingança ao dia que nunca iria chegar.

Uma vingança a minha língua que um dia duvidou do nosso amor.

5 de agosto de 2010

Amor Marginal


Eu estou na frente do espelho tentando me encarar, olhando no fundo dos meus olhos. E vejo bem lá no fundo a sinceridade do que eu não queria confessar, entre as frases que balbucio e revisto com raiva. Elas vem maquiadas com a ignorância, com o desprezo por mim mesmo, a raiva de tudo que eu fiz eu mesmo passar. Vem pintada a quatro cores de arrependimentos que refletiram a minha total falta de amor próprio.

O meu amor próprio que esvaziou-se porque eu dei ele todo pra você. Enchi o copo até a borda e o último pingo era veneno. Transborda minha alienação por recusar olhar através da janela um novo dia que já raiou e nem a vergonha faz meus pés se aquecerem.

Eu tomo café sozinho na cozinha lendo as notícias do jornal da semana passada. Fiquei perdido naquele tempo e ainda não voltei desde aquela noite. Onde me dei por inteiro sem papel de presente caro. Onde me dei por falta de convicção de qualquer valor que eu pudesse ter. Me dei na liquidação de um amor raso que não me deu troco de volta. Nenhum centavo de tostão furado.

O amor que me faz de bobo. Entre experiências inexplicáveis, dentro de um filme sem roteiro, onde a ficção não precisa fazer sentido algum. O amor que me coloca as vendas nos olhos e me rodopia no saguão, pra que eu gire e tente acertar o boneco cheio de balas. Eu tento acertar. A esperança é o gosto doce do que virá a ser. Mas eu só consigo sair tonto e pedindo pra vomitar.

Eu brindo as minhas façanhas mais incríveis, das quais eu mesmo admiro, entre os copos de cervejas com os amigos. A cada história eu enfio o dedo na garganta pra contar, pois nada me dá mais ânsia do que pensar nesses velhas histórias. Os amores perdidos não tem brilho nenhum, só deixam o amargor no canto da boca. Nunca deixam o cheiro de rosas, não enquanto elas não murcharem de vez.

E minha casa anda fedendo a jasmin.

Ouvindo, sentado no chão no umbral da portal e vendo o movimento da rua:

30 de julho de 2010

Saudade de casa


Hoje passei o dia refletindo e cheguei a uma séria conclusão.
Quero que você seja feliz.

Ao som de:

Eu já passei tanta coisa ao seu lado, uma história linda, com seus altos e baixos. Mas acima de tudo eu quero ver você feliz. Porque cada vez que eu me aproximo, mesmo tendo que pular um muro enorme e me machucar na queda até chegar em você, quando vejo um sorriso seu o meu mundo se acalma. Os ruídos da guerra se aquietam, até minha alma encontra alguma paz.

Eu já fui responsável por tantas coisas em você, desde uma lágrima amarga e infeliz até as surpresas mais fantásticas, e por isso eu quero que você seja feliz. Na sua escolha, mesmo que não seja comigo, na sua estrada, mesmo que não seja o meu caminho.

Existem tantas coisas pra acontecer, e a vida não vai fazer questão de pegar leve. O que eu posso fazer é apostar minhas fichas, acompanhar o jogo e tentar ser o mais sincero possível. Eu acredito nesse amor, por isso minha prova maior será sobreviver mesmo diante de um sacrifício.

O meu amor é tanto que eu quero o teu sorriso, e não quero roubar a sua vida pra mim. Não posso fazer isso. Não quero, não seria justo.

Então eu fico de lado, olhando a lua, no canto da rua, brincando com pedras no chão esperando você me chamar de volta. Não nego. É aquela velha sensação do fim de tarde, esperando que a voz da mãe chame de volta pra casa porque está na hora do jantar. Na hora de voltar pro aconchego de um abraço apertado, do cheiro do lar.

E eu estou com muita saudade de casa.